Márcio assistia tranquilamente a um filme quando em determinado momento da trama o protagonista disse "Você pode ser o que você quiser, basta sonhar". Na mesma hora ele desligou a TV e foi dormir. Dormir porque estava exausto de ouvir essas frases de efeito que não causam efeito nenhum na vida das pessoas a não ser fazerem-nas se sentirem inúteis.
Desde pequeno que Márcio ouvia a mesma ladainha, no entanto, no meio da procissão a vida mudava a reza sem que o coitado nem percebesse e pudesse cantar junto com o coro. Não conseguia acompanhar as pessoas.
Márcio um dia quis ser cantor, estudou canto, aprendeu inglês pra não fazer feio na letra das músicas, porém seus amigos diziam que ele tinha uma péssima voz e era melhor desistir da ideia pelo bem da humanidade. Depois disso, Marcio quis ser alfaiate, pois adorava tentar fazer suas próprias peças de roupa e sempre que tinha algum defeito de costura em casa ele se intrometia para 'consertar'. O problema foi que seu pai não gostou nada disso e falou que ele não podia ficar fazendo costura pois "Costura não é coisa de homem!". Tempos depois, Márcio mais uma vez tentou uma carreira. Queria agora ser ator. Só que novamente falaram da falta de talento do rapaz, que acabou desistindo de novo. Quando tentou ser professor sua família quase o internou em um hospital psiquiátrico. "Como pode se pensar em viver com o salário de um professor? Não, esse pensamento é muito mesquinho pra você, meu filho", diziam os pais do garoto. E foi isso que disseram quando ele tentou ser pintor, tradutor, enfermeiro, bibliotecário, cientista...
Você pode ser o que quiser, basta sonhar.
E realmente bastava. Marcio decidiu que precisava dar um basta na vida que estava querendo ter e foi o que fez. Hoje ele vive fazendo o que ele mais sabe fazer: nada. Ele coleciona nadas.
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