segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Bomba-relógio


Era uma manhã de segunda-feira e ele caminhava. Com seu tênis cinza pisou em uma poça resultante da chuva forte que caiu meia hora antes. Estava preparado para sair, tinha vestido um sobretudo marrom, uma camiseta gelo e uma calça preta. Tudo combinado com seu estado de espírito. Combinando a cidade morta em que morava, com o frio e com a chuva que apesar de já ter caído havia deixado no céu nuvens carregadas preparadas para uma próxima visita ao chão.

O homem estava cansado, com olheiras em sua pele pálida, cabelo bagunçado e aparência de quem não havia tido uma boa noite de sono. Sua idade era bem menor do que realmente parecia. Todos o viam como um homem de 40 anos, não sabendo que ele só tinha 27.

Ele caminhava e o passo rápido denunciava seu nervosismo, e, como quem quisesse ter certeza de que não tivesse esquecido nada ele pegou o envelope pardo do bolso dentro do sobretudo. Em letras cursivas numa caligrafia muito bela havia somente duas palavra: leia sozinho.

Continuou o passo rápido e verificou o relógio analógico em seu pulso. Eram 6:42 da manhã e ele estava ali naquela rua cheia de casas abandonadas, sem nenhum som sequer ao não ser o do vento batendo num pé de ipê que dançava uma coreografia majestosa com seus galhos cheios de folhas vermelhas e laranjas. Aquelas cores em nada o agradava.

Ao se virar para checar mais uma vez se estava sozinho, ele viu uma sombra em uma janela de uma casa roxa a uns dez metros atrás de si. O medo tomou conta de seu corpo que ficou enrijecido. Será se estaria ele sendo vigiado? Nessa hora o peso do envelope pardo pareceu crescer exponencialmente, estava quente, palpitava, a impressão que era de que ele carregava uma imensa bomba-relógio. E era quase isso. As palavras que continham dentro do envelope possuíam o mesmo efeito e, apesar do frio, uma gota de suor escorreu pela sua testa. Não estava preparado para encarar as palavras impressas no papel e queria adiar aquele momento o quanto pudesse, mas sabia que mais cedo ou mais tarde teria que encarar os fatos, ou as belas letras escritas em preto que poderiam não ter nada de belo para contar. Mas enquanto não chegasse ao seu destino final o homem não leria. Essa havia sido uma das exigências do remetente.

A pele do homem estava mais pálida que o normal, seu estômago se revirava todo, sentia gosto de bile na boca. Talvez medo, talvez somente ansiedade. Naquela carta poderia estar a salvação de sua vida, mas também a destruição dela. Uma linha tênue. Era assim que ele se sentia, como se estivesse caminhando por uma linha tão frágil que o poderia levar a dois extremos que ironicamente caminhavam lado a lado. Deveria abrir? Ele no fundo tinha vontade de abrir aquilo logo de uma vez e se livrar da ansiedade.

Uma leve chuva começou a cair, olhou para cima e um pingo caiu em seus olhos azuis. Fechou, mas não os tocou, apenas esperou que a gota escorresse. Gota essa que poderia muito facilmente ser confundida com uma lágrima. Ele retomou a caminhada em passos rápidos, precisava chegar a um local seguro para ler aquilo que o viria libertá-lo (ou não). Guardou o envelope no bolso do sobretudo, cruzou os braços e abaixou a cabeça continuou caminhando.


Aquele seria o dia que marcaria um novo começo, sua vida estaria totalmente mudada após ler aquelas letras organizadas em frases contidas naquele papel no envelope pardo. Mas a ordem que ele precisava seguir eram dos passos de seus tênis cinza naquela rua suja. E assim ele seguiu. Um passo após o outro.


Gostou do texto? Faz parte de um exercício de um projeto maravilhoso que estou participando, o Projeto Escrita Criativa. Quem quiser conhecer mais, acesse a página ou o grupo do projeto. Lá tem a lista de todos os blogs participantes. A ideia da postagem (do mês de agosto que só fiz agora) era fazer um texto descritivo sobre "uma pessoa andando nas ruas com um envelope nas mãos". E aí? Você acha que eu cumpri bem o que foi proposto? Adorei ter desenvolvido esse texto porque já me encheu de ideias para uma possível continuação (mas não só ideias). Até uma próxima!

P.S. Aqui você encontra  texto da Fernanda Rodrigues, que também faz parte do projeto. Dá uma olhada, o texto dela é ótimo!

2 comentários:

  1. Maravilhosa a sua descrição! Confesso que fiquei curiosa para saber o conteúdo da carta. Bjs www.janelasingular.com.br

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    1. Own, obrigado. A intenção era realmente essa porque estou pensando em dar uma continuação (ou o começo) no exercício do próximo mês. :)

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