Um tempo atrás eu
tive uma experiência bem legal na vida: ouvi histórias de amor. Era uma
intervenção artística que fazia parte de uma oficina teatral que participei,
então, mesmo morto de vergonha, botei a cara no sol e fui.
Fiquei sentado em
um corredor bastante movimentado do prédio em que estudo segurando uma
plaquinha com a frase “Ouço histórias de amor” escrita nela. Meus primeiros 10
minutos foram bem vergonhosos porque a cara das pessoas que me viam ali era de
“What? Que pessoa em pleno meio dia de uma segunda-feira fica num corredor pra
ouvir histórias de amor?” Na verdade esse povo artístico de teatro costuma
fazer com freqüência coisas do tipo, mas aí que ta o negócio: eu não sou de
teatro; logo, não é comum pra mim sair por aí perguntando sobre a vida das
pessoas nem nada parecido.
Pois bem, passados
os dez primeiros minutos sentou uma pessoa. Não importa se era um amigo e só
aceitou sentar porque eu pedi uma, duas, três, dez vezes, né? Não, não
importa! O amigo ficou bem relutante em se abrir no começo por conta da
história não ter um final legal, mas aí perguntei se ele amou a tal pessoa
mesmo que por um tempo e se amá-la o deixou feliz, ele disse que sim. Pronto!
Foi o suficiente pra entender o objetivo do negócio.
A história até que começa
bem quando um amigo desse meu amigo o apresenta à tal pessoa, que depois viraram
muito amigos mas não podiam ficar juntos porque a pessoa tinha um namorado. Daí
em diante a história fica meio tensa, pois acontece que, num momento em que meu
amigo já estava loucamente apaixonado, a pessoa que ele gostava disse que tinha
dado um tempo no namoro e rolou que eles acabaram transando. O tenso da
história é que ela acabou bem ali. A parte do tempo no namoro era mentira e para
a pessoa o que aconteceu foi somente sexo enquanto pro meu amigo tinha sido
muito mais, pois já tinha se envolvido bastante na situação. Resultado: ele ficou
um caco. O que se aprende dessa fábula do terror é: não transe com quem acabou
de dar um tempo no namoro. Mentira, pode transar mas não se envolva. Mas
voltando ao caso do um amigo: o lado bom é que ele mesmo resolveu esquecer a
pessoa, bloqueou de tudo e cortou qualquer relação antes que sofresse ainda
mais. Hoje em dia ele ta bem e nem sofre miséria por causa desse passado. A
prova disso é que já viveu “trocentas” outras histórias de amor depois do
episódio.
Depois dessa
primeira história eu fiquei super curioso para ouvir uma feliz, e não demorou
muito e a segunda pessoa apareceu. A história foi bem engraçada e cheia de
detalhes, no entanto os dez minutos de conversa podem ser resumidos em: Um garoto
rebelde gostava de uma garota da igreja, e que pra se aproximar, resolveu fazer
parte do grupo de teatro, chegando até a ganhar o papel de Jesus numa peça – o
garoto tinha cabelo moicano na época; ou seja, Jesus era meio punk. A
garota o odiava, mas virou sua amiga e com o tempo se apaixonou por ele e estão
juntos há quatro anos.
Em outra história o
contador tinha vivido esse amor em outro estado e o romance acabou por conta da
distância. Já em outra, o contador se sentia muito mal por ter iludido o
coração de uma garota. Uma das mais fofas foi sobre uma amizade que virou amor
por conta da insistência e da falta de desânimo do contador mesmo após levar
mais de setenta “nãos” da pessoa que amava.
Ao longo daquele dia
ouvi várias histórias que variavam de tristes a felizes, de homo a
heteroafetivas, até história de amizade, já que elas também são de amor. O mais
legal foi que algumas pessoas não entenderam que a iniciativa fazia parte de um
curso e ligaram o fato somente a mim como o Garoto Que Ouve Histórias de Amor.
Achei o máximo. Foram tantos relatos, às vezes mais de um pela mesma pessoa e
algumas histórias estavam começando a serem escritas e tinham tudo pra serem
felizes por muito tempo. Tomara que sejam.
Como isso tudo
posso dizer que fiquei muito contente por ver que as pessoas estão amando por
aí. O mundo precisa de mais amante porque, quando se está amando trancado em
próprio mundinho, não importa se o vizinho dorme com homens ou mulheres, se a
menina da sala de aula é negra e tem o cabelo crespo, se a caixa do
supermercado é transgênero ou se a amiga não é cristã, o que importa mesmo é a
felicidade de um amor bem vivido, e que todas as pessoas, mesmo que diferentes,
tenham um dia a experiência de amar. Amar é tão legal que eu nem me importo se
é correspondido ou não, pois só de sentir essa coisa maravilhosa no coração já
me sinto mais humano e mais alegre e com vontade de sair cantando por aí como
um personagem de High School Musical.
Como já havia dito,
fiquei associado como o Garoto Que Ouve Histórias de Amor e por conta disso até
pouco tempo uma pessoa chegou em mim no facebook pra contar seu romance. Fiquei
bem feliz, pois adoro ouvir, ver e ler histórias de amor, então se aprochegue,
fica a vontade e diga pra mim sobre quando você amou alguém. Sou todo ouvidos.


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