quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Daquilo que aprendi com a vida

Sou um garoto novo, mas apesar da pouca idade, a vida já me deu várias lições que transformaram a pessoa que sou hoje. Alguns momentos foram difíceis pois às vezes tive que aprender à força, foram perdas, brigas, falta de comprometimento ou falta de fé mas até nesses momentos eu tinha consciência que a fase passaria e depois de um tempo eu tiraria alguma coisa valiosa daquilo.

Em toda a minha história presenciei algumas pessoas que amava partindo e outras que eu nem sabia da existência chegando e ocupando um lugar imenso no coração. Aprendi com a vida que tudo o que Deus faz é bom, e nós devemos deixá-lo tomar as rédeas de algumas coisas antes que tomemos decisões precipitadas. 

Aprendi que devemos sempre ter pessoas que amamos por perto. Esse é um dos grandes segredos da longevidade, porque pensa comigo, mesmo se elas se forem embora, ainda permanecerão vivas no coração. Os amigos são presentes maravilhosos que sempre devemos valorizar, e a vida me ensinou também que devemos priorizar pela qualidade não a quantidade. É ótimo ter muitos amigos, mas mais do que isso é ter um almoço numa tarde de domingo com uns poucos amigos que conhecemos há 40 anos. 

Uma das coisas mais valiosas é que quem nos ama de verdade aceita que sigamos nossos próprios caminhos. Se importam de verdade com a nossa felicidade e ficam felizes se estivermos felizes.Aprendi que nunca é tarde para se começar a fazer alguma coisa, seja um esporte, ou um livro, um relacionamento ou uma nova faculdade. O tempo tá aí, podemos gastar como quisermos.

Outra coisa que aprendi é que não é preciso de muito para ser feliz. Uns milhões na conta te garantem estabilidade financeira e tal, mas a grande maioria do país não tem quase que nenhum dinheiro guardado e ainda assim o Brasil é um dos países mais felizes do mundo.

Aprendi com a vida a lidar com clichês, e até a amá-los de vez em quando. A vida é bela, e precisamos lidar com isso para encarar os momentos tristes de cabeça erguida e ao fim deles tirarmos mais uma lição.

Foto do meu trote na faculdade. Um dos momentos mais mágicos e que me ensinaram que posso dividir meus sonhos com algumas pessoas.



Gostou do texto? Faz parte de um exercício de um projeto maravilhoso que estou participando, o Projeto Escrita Criativa. Quem quiser conhecer mais, acesse a página ou o grupo do projeto. Lá tem a lista de todos os blogs participantes. A ideia da postagem do mês de setembro era "Daquilo que aprendi com a vida" (obvious). Algumas pessoas optaram por poesia, outros por lista, já eu escolhi fazer um texto dissertativo curto. Mês que vem tem outro desafio!

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Devaneio coletivo

O dia estava quente, bem quente. Segundo o noticiário da tv local, a temperatura da cidade estava em trinta e três graus, mas para Noele estava beirando os cinqüenta. Esses metereologistas não entendem de nada. Desligou a tv e o ventilador da sala, foi à geladeira beber um pouco de água bem gelada depois pegou a sua bolsa, pasta de xerox, celular e saiu de casa.

A garota de dezenove anos dava graças à Deus por morar próximo à parada de ônibus, pois andar bastante num sol escaldante de meio-dia para pegá-lo lotado em plena segunda-feira era penitência demais, e Noele não achava que pecasse tanto assim. No pequeno trajeto da sua casa até a parada ventava bastante, era como um bafo quente de dragão que queria de todas as formas desfazer toda aquela maquiagem magnífica que havia passado vinte minutos fazendo. Não, não era justo que o calor fosse um vilão tão baixo.

Chegando na parada, Noele ficou ansiosa para que seu ônibus chegasse, não que estivesse atrasada, porque não estava, mas sim porque era segunda-feira, o começo de uma nova semana e porque por mais inacreditável que possa parecer, Noele adorava andar de ônibus. Não fora sempre assim, pois durante toda sua infância detestava ter de andar num veiculo amontoado de pessoas desconhecidas, suadas e ainda por cima levar mais que o dobro do tempo necessário que um carro precisaria para chegar ao seu destino, mas em algum momento isso mudou, ela só não lembra bem quando.

O que Noele lembra é de uma vez ter ouvido uma bela música romântica sobre a história de amor que se desenrola dentro de um ônibus e depois disso ter sonhado que estava numa igreja, vestida de noiva e seu noivo foi fazendo um belo discurso de como se conheceram no tal transporte público. Claro que nunca passou pela cabeça dela que o sonho poderia ter sido conseqüência das milhares de vezes que ouvia e cantava a bendita música, e mesmo se pensasse não faria diferença. Como absurdamente romântica que era, Noele só pensava que aquilo era uma visão ou uma dica do destino de como encontraria  o grande amor de sua vida.

Determinada, a mulata de cachos volumosos e olhos cor de mel tinha posto a ideia na cabeça e não havia ninguém capaz de tirá-la. Havia tido três namorados em toda a vida, mas chegava um momento em que a coisa ficava mais séria e Noele optava por acabar logo o namoro. Rodrigo, o primeiro, era um cavalheiro. Metidinho um pouco, mas nada que não fosse capaz de lidar numa boa. O rapaz sabia como tratar uma mulher e lhe dava até flores, mas para Noele isso não era bom o bastante. Gabriel, o segundo, era um surfista profissional. Apesar de ser quatro anos mais velho que ela, ele ainda tinha cabeça de garotão. E se tinha uma coisa que Noele não tinha era paciência para lidar com caras imaturos. Mas Gabriel apesar de tudo fazia programas bem interessantes como levá-la para viajar, praticar esportes, assistir filmes de terror, mas para ela isso não era bom o bastante. O terceiro e mais recente foi Clodovil, um garoto tão hilário quanto seu nome. Ele tinha palavras fáceis, elogiava bastante a beleza da namorada, a levava para o pagode e era muito sociável. Clodovil sabia lidar com as pessoas no papo e foi com esse seu jeitão maroto que acabou se envolvendo com duas amigas de Noele. Ela nunca soube de nada, mas terminou com ele pois achava que também não era bom o bastante.

Isso era o que ela dizia a si mesma porque no fundo, no fundo, sabia que o motivo era outro: eles não se conheceram em um ônibus, e esse era um requisito importantíssimo para se ter alguma coisa mais séria com ela. Durante um tempo após o término Noele se sentia uma tremenda idiota, porém superava o chilique rapidinho e logo estava à procura de seu amor nos busões.

Ali na parada esperando o transporte seu coração batia forte e não sabia de que jeito, mas pressentira que o amor de sua vida seria encontrado naquele dia. Milagrosamente em menos de dois minutos ele chegou. Não o amor, e sim o ônibus. A garota subiu, deu boa tarde ao motorista e a cobradora e sentou-se em um dos bancos no meio do veículo, do lado da janela. Ao seu lado estava sentada uma senhorinha que tinha os costume de pintar os cabelos de rosa pink. Era um amor. Noele nunca soube seu nome, mas sempre se cumprimentavam e às vezes até comentavam sobre o tempo. Quando se acomodou na cadeira, a garota olhou discretamente ao redor à procura de algum rapaz interessante. Nada.

Noele estava à procura de um rosto específico, mas não lembrava nenhum detalhe, nenhuma especificidade. No sonho que teve quando nova, lembrava de ter olhado diretamente nos olhos de seu noivo e no momento até existia um rosto de verdade, mas atualmente o que restava eram lapsos de memória. Tudo borrado naquilo que viria a ser a identidade do amor de sua vida. Quando se interessava por algum rapaz  andando pelos ônibus à fora, a garota sempre tinha certeza que o rosto do tal rapaz era o de seu sonho, “só podia ser”, mas assim que descia em sua parada sua certeza se dissolvia como algodão-doce na boca. Uma sensação gostosa de estar sentindo que algo maravilhoso está com você até que ele some por completo e só fica a memória do sabor.

Noele olhou mais uma vez à sua volta e como nada encontrou resolveu ler seu livro que estava na bolsa. Como faltavam só trinta páginas para terminá-lo e o percurso até a faculdade era longo, ligeiramente terminou a leitura. Pronto, estaria sem nenhuma distração pelos próximos vinte e cinco minutos. Guardou o livro na bolsa e olhou para a janela. Viu carros, casas belíssimas, alguns garotos andando de skate numa praça, uma igreja, tudo igual aos outros dias, a única diferença era o garoto que estava sentado à sua frente e que olhava timidamente seu reflexo na janela. Noele desviou o olhar. Garoto estranho esse com uma camisa duas vezes o seu tamanho, pensou ela. Ele tinha várias pulseiras metálicas no braço, um colar com uma cruz negra e um piercing no nariz, o único detalhe que realmente exalava beleza eram seus olhos incrivelmente verdes num tom de esmeralda. Noele achou que a ênfase no olhar era causada pelos lápis de olho preto que ele usava. Ficou intrigada.

Discretamente continuou com o jogo de olhares, ficava olhando o reflexo do garoto pelo vidro, mas, quando ele olhava de volta, Noele virava um pouquinho o rosto  para fingir que prestava atenção nas fachadas das casas da cidade, sempre com um sorriso dissimulado nos lábios, claro. Continuou com isso durante um tempo e seu coração já dava pulinhos. O garoto não fazia muito seu tipo, mas se tinha que ser ele ela não reclamaria com o destino, na verdade começava até a imaginar seu rosto no corpo do noivo dos sonhos. Imaginação não lhe faltava.

O ônibus parou e a senhorinha pink desceu, deixando o lugar ao lado de Noele vazio e, como o ônibus estava quase sem ninguém, o coração dela quase saiu pela boca diante da possibilidade de o garoto se levantar e sentar ao seu lado. Naquele momento ela decidiu prestar atenção em todos os detalhes do garoto (como fazia com todos os outros que se interessava) para quando for contar para seus filhos, dissesse tintim por tintim do momento em que vira seu pai pela primeira vez. Faria questão de ser detalhista pois Natasha, Samanta e Juliano seriam como ela, ávidos por uma história de amor bem contada. Quem sabe contaria o romance enquanto os cinco passeassem com a cadelinha Teodora pelas ruas do Rio de Janeiro, cidade onde certamente morariam.

Dois minutos depois da Senhora Pink ter descido, o garoto de olhos verdes se levantou e... puxou a cordinha. Ele iria descer. Noele ainda estava a uns dez quarteirões da faculdade mas aquele ponto era o fim da linha. Fim da linha de mais uma história de amor não-sucedida. Continuou a viagem sentadinha no mesmo lugar sem saco para reparar em qualquer garoto que passasse pela catraca. Dez quarteirões depois foi a vez dela mesma descer e enfrentar mais um dia cansativo na faculdade de letras. Noele sonhava em ser contadora de histórias, não importava como.


          Às seis e meia da tarde era hora que a aula da garota acabava e ela já se preparava para pegar mais um ônibus para ir para casa. A tarde de alguma forma serviu para revigorar suas forças e seu imenso potencial de acreditar em coisas sem pé nem cabeça. Pôs o pé no primeiro degrau do veículo e já estava disposta a encontrar o amor de sua vida, mas sabia que se não encontrasse não desistiria. Na pior das hipóteses de não encontrá-lo, ela teria pelo menos uma história para contar.





terça-feira, 15 de setembro de 2015

Transformando o quarto com R$ 4,80

Olá colega da internet, tudo bem com você? Tenho uma perguntinha pra fazer: qual o seu lugar favorito de todo o mundo?

O meu com certeza é a minha casa, mais precisamente o meu quarto. É lá que eu durmo (claro), leio e também escrevo, sem contar que quando preciso desestressar eu ponho uma música no celular, me jogo na cama e, pronto, fico zen. No entanto, apesar de eu gostar tanto assim, ele é meio sem graça, sabe? Todas as paredes brancas são sem atrativo nenhum e a única coisa que dá uma embelezada nele são as minhas prateleiras de livros que ocupam só uma das paredes sendo que as outras continuam sem graça. 

Então eu aproveitei que nesse feriadão estava sem nada para fazer e resolvi reaproveitar algumas coisas que tinha em casa e fazer algo que deixasse meu quarto mais aconchegante e com a minha cara, ou seja, fofo.

Bem, como está no título do post eu gastei menos de cinco reais para transformar o quarto (a principal parede dele), mas isso se deu por conta de eu já possuir alguns dos materiais então pode ser que você gaste um tiquinho a mais, mas CALMA, não é nada absurdamente caro. Deixa eu explicar....

Eu usei 8 materiais nessa reforminha, mas eu gastei realmente só em um deles: a tinta acrílica (que por sinal eu já tinha em casa porque comprei para fazer um presentinho para uma amiga) que foi R$ 4,80. Enfim, chega de lenga lenga e vamos ao tutorial.



1 - MATERIAIS
Os materiais que eu utilizei foram pincel, caneta hidrográfica azul, fita adesiva, tesoura, régua, lápis, borracha e metade de uma folha de papel A4. Coisinhas básicas que temos em casa, nada que vai te empobrer, pelamor. Se não tiver papel use papelão que servirá do mesmo jeito, só atente pelo tamanho.

2 - TINTA
O grande trunfo dessa transformação é essa tinta acrílica maravilhosa que não tem nada a ver com pintura de parede mas que deu superhipermegapower certo. É a tinta PVA Cintilante da Corfix de 100 ml. O azul é bem lindo e tem uns bilhinhos que deixam a parede mais linda ainda, pode confiar. Bem, como eu disse, a tinta eu havia comprado a um tempo por R$ 4,80 pra fazer um presentinho pra uma amiga e tinha guardado. Quando eu fui procurar para pintar a parede ainda tinha METADE do vidrinho e acredite DEU PRA PINTAR TODAS AS NUVENS E AINDA SOBROU UM POUCO.

3 - DESENHO 
Depois de inúmeros testes eu meio que fiz uma nuvem bonitinha mais ou menos do tamanho do papel (metade de uma folha A4).

4 - RECORTE O DESENHO

5 - REPITA 
O ideal é que você faça vários desenhos da quantidade suficiente para preencher a largura da parede. Mas no caso eu não tinha papel suficiente. Que triste.

6 - COLE COM FITA
A fita é essencial pra que você demarque logo no local a base de onde você quer as nuvens. Cole-as logo em toda a extensão da parede para você ter uma ideia de onde por as nuvens da fileira acima. Eu colei a primeira onde eu acreitei ser o meio dela e as nuvens da lateral fui colando com 41 cm de distância, já as de cima foram 30cm. Como mostra na imagem, eu escolhi colocar as nuvens da fila superior na direção do meio das que estavam embaixo. Achei mais bonito assim.

7 - CONTORNE
Utilize a caneta hidrocor do tom mais próximo da tinta para contornar todas as nuvenzinhass.

8 - PINTE
Deixe seu lado Da Vinci aflorar e pinte, pinte mesmo não importando a direção. Afinal, ninguém liga. Depois de pronto mesmo não vai dar nem pra reparar que você teve todo o trabalho de pintar em um sentido só. Aproveite esse momento para relaxar, pensar nas besteiras da vida e no que vai dizer para os amigos por ter desmarcado aquela saída pro cinema.

9 - ESTOU BELÍSSIMO PINTANDO.
Estou mesmo, mas vou aproveitar aqui pra dar dicas importantes que eu esqueci de mencioná-las antes. Primeira: faça tudo isso ouvindo os álbuns YES de Jason Mraz e 21 da Adele. Eu fiz e recomendo. A segunda dica é: Misture a tinta com um pouquinho de agua num copo que você não use. O resultado vai ser o mesmo do que usar a tinta grossa e você ainda irá economizá-la. A terceira é: faça um lanchinho antes. O braço pode cansar e ter aquela fraqueza, por isso é bom comer e ficar fortinho antes.

10 - ATENTE AOS DETALHES
Se na sua parede tiver alguma coisa que não combine, pinte-a. Foi o que eu fiz com essa escápula de rede hiper enferrujada. Achei que merecia um cuidado pra não fixar destoante. Se tiver uma tomada também pelo meio do caminho, faça o mesmo, mas tome os devidos cuidados. Não quero ninguém levando choque por minha causa, pelamor.

11 - FAÇA O ACABAMENTO
Sabe aquela caçada que você fez que o pincel pintou mais do que devia e acabou ultrapassando a linha da nuvem? Relaxa, tem jeito pra isso. Claro que a nuvem vai ficar mais feinha que as outras mas nada que um contorno com o hidrocor azul não disfarce. De preferência faça um pouco mais grosso. Fica mais bem feito.

Então é isso colega, a parede ficou completamente pronta em menos de três horas e a tinta secou instantaneamente, acredita?

Em pouquíssimo tempo eu mudei muito a aparencia opaca do quarto e adorei pois senti que deu uma vida no ambiente. Se antes eu gostava dele, agora eu gosto muito mais e não sinto nem vontade de sair. Eu estou adorando essa vibe artística do contrário que ele tem. 

Por que ter uma parede azul com nuvens brancas quando se pode ter uma parede "do contra" super autêntica? 

Meu céu é de uma manhã com neblina e nuvens bem carregadas preparadas para chover a qualquer momento, então eu meio que já estou amando essa troca de cores. Afinal, o que seria da arte sem a subjetividade?




Agora dá licença que eu vou bem ali descansar um pouco lendo meu livrinho no meu céu particular. Enquanto isso você me diz nos comentários o que achou do meu "novo" quarto. Beijos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Bomba-relógio


Era uma manhã de segunda-feira e ele caminhava. Com seu tênis cinza pisou em uma poça resultante da chuva forte que caiu meia hora antes. Estava preparado para sair, tinha vestido um sobretudo marrom, uma camiseta gelo e uma calça preta. Tudo combinado com seu estado de espírito. Combinando a cidade morta em que morava, com o frio e com a chuva que apesar de já ter caído havia deixado no céu nuvens carregadas preparadas para uma próxima visita ao chão.

O homem estava cansado, com olheiras em sua pele pálida, cabelo bagunçado e aparência de quem não havia tido uma boa noite de sono. Sua idade era bem menor do que realmente parecia. Todos o viam como um homem de 40 anos, não sabendo que ele só tinha 27.

Ele caminhava e o passo rápido denunciava seu nervosismo, e, como quem quisesse ter certeza de que não tivesse esquecido nada ele pegou o envelope pardo do bolso dentro do sobretudo. Em letras cursivas numa caligrafia muito bela havia somente duas palavra: leia sozinho.

Continuou o passo rápido e verificou o relógio analógico em seu pulso. Eram 6:42 da manhã e ele estava ali naquela rua cheia de casas abandonadas, sem nenhum som sequer ao não ser o do vento batendo num pé de ipê que dançava uma coreografia majestosa com seus galhos cheios de folhas vermelhas e laranjas. Aquelas cores em nada o agradava.

Ao se virar para checar mais uma vez se estava sozinho, ele viu uma sombra em uma janela de uma casa roxa a uns dez metros atrás de si. O medo tomou conta de seu corpo que ficou enrijecido. Será se estaria ele sendo vigiado? Nessa hora o peso do envelope pardo pareceu crescer exponencialmente, estava quente, palpitava, a impressão que era de que ele carregava uma imensa bomba-relógio. E era quase isso. As palavras que continham dentro do envelope possuíam o mesmo efeito e, apesar do frio, uma gota de suor escorreu pela sua testa. Não estava preparado para encarar as palavras impressas no papel e queria adiar aquele momento o quanto pudesse, mas sabia que mais cedo ou mais tarde teria que encarar os fatos, ou as belas letras escritas em preto que poderiam não ter nada de belo para contar. Mas enquanto não chegasse ao seu destino final o homem não leria. Essa havia sido uma das exigências do remetente.

A pele do homem estava mais pálida que o normal, seu estômago se revirava todo, sentia gosto de bile na boca. Talvez medo, talvez somente ansiedade. Naquela carta poderia estar a salvação de sua vida, mas também a destruição dela. Uma linha tênue. Era assim que ele se sentia, como se estivesse caminhando por uma linha tão frágil que o poderia levar a dois extremos que ironicamente caminhavam lado a lado. Deveria abrir? Ele no fundo tinha vontade de abrir aquilo logo de uma vez e se livrar da ansiedade.

Uma leve chuva começou a cair, olhou para cima e um pingo caiu em seus olhos azuis. Fechou, mas não os tocou, apenas esperou que a gota escorresse. Gota essa que poderia muito facilmente ser confundida com uma lágrima. Ele retomou a caminhada em passos rápidos, precisava chegar a um local seguro para ler aquilo que o viria libertá-lo (ou não). Guardou o envelope no bolso do sobretudo, cruzou os braços e abaixou a cabeça continuou caminhando.


Aquele seria o dia que marcaria um novo começo, sua vida estaria totalmente mudada após ler aquelas letras organizadas em frases contidas naquele papel no envelope pardo. Mas a ordem que ele precisava seguir eram dos passos de seus tênis cinza naquela rua suja. E assim ele seguiu. Um passo após o outro.


Gostou do texto? Faz parte de um exercício de um projeto maravilhoso que estou participando, o Projeto Escrita Criativa. Quem quiser conhecer mais, acesse a página ou o grupo do projeto. Lá tem a lista de todos os blogs participantes. A ideia da postagem (do mês de agosto que só fiz agora) era fazer um texto descritivo sobre "uma pessoa andando nas ruas com um envelope nas mãos". E aí? Você acha que eu cumpri bem o que foi proposto? Adorei ter desenvolvido esse texto porque já me encheu de ideias para uma possível continuação (mas não só ideias). Até uma próxima!

P.S. Aqui você encontra  texto da Fernanda Rodrigues, que também faz parte do projeto. Dá uma olhada, o texto dela é ótimo!

domingo, 6 de setembro de 2015

Sobre o que ser quando crescer

Quando era criança, eu tinha milhares de sonhos e planos do que seria quando fosse adulto. Ser adulto era uma coisa de extrema importância para mim e eu me esforçava bastante na escola para orgulhar minha família, afinal eu estava estudando para um dia ser adulto bem sucedido, certo? Bem, era isso que eu pensava.


Foi posto desde cedo na minha cabeça que eu deveria seguir uma profissão que desse dinheiro como  advocacia, engenharia, arquitetura ou medicina, e, durante um tempo eu até me animei com a ideia (de ser bem sucedido, claro, pois desde cedo vi que não tinha vocação pra nenhuma dessas profissões).

O que eu gostava mesmo era de arte. Gostava de inventar historias para meus bonecos de plástico, amava ouvir música em casa e ficar dancing with myself . Fazia fantoches de meia e apresentava para uma platéia imaginária, pois adorava a ideia de ter um público prestando atenção em algo que eu havia me dedicado para fazer. Gostava de cantar músicas em inglês mesmo sem saber nada da etra ou sobre notas musicais e também costumava usar a escova de cabelo como microfone, e, quando não cantava, eu apresentava algum programa na minha televisão imaginária. Mas de todas essas coisas, o que eu mais gostava era de ler e escrever poesias.
Menino lendo na cama, 'by Anni Matsick'

Todas essas diversões solo eram escolhas minhas porque apesar de ter sempre bastantes amigos e primos com quem brincar, eu preferia muitas vezes ficar isolado e curtir minha infância sozinho, fazendo aquilo que eu considerava arte. Mas com o passar do tempo, a falta de compreensão e  meu "amaendurecimento" fez com que tudo isso se perdesse. Comecei a escrever menos e não mais produzia fantoches porque costura não é coisa que um rapaz deve fazer. O caderninho de poesia foi pro lixo, junto com todas as rimas inocentes da minha infância. Cantar passou a ser uma coisa bem íntima, só quando sabia que estava sozinho porque ninguém era obrigado a ouvir minha voz feia. Brincar de bonecos aos 11 anos de idade passou a ser um grande segredo que mantinha, pois é vergonhoso que você se comporte como criança quando seus amigos estão começando a se importar com coisas mais sérias, como namorar, por exemplo. E eu fui nessa onda.

Tentei passar pelas mesmas coisas que meus amigos passavam, tudo sem saber que não era hora, aquele não era meu momento. Eu ainda era uma criança. Fui crescendo e a vontade de viver de arte foi sendo reprimida, o pensamento de que deveria ter uma profissão "mais útil" foi ganhando espaço até que decidi que seria advogado. Mas confesso que nesse processo eu continuava com muitos sonhos que não fossem ser advogado como ser escritor, músico, ator, ou até mesmo professor de literatura, mas esse tipo de coisa não podia ser falada em voz alta. "Onde já se viu passar a vida ganhando a mixaria de salário de professor, Leonardo?" Isso seria jogar no lixo todas as expectativas e investimentos que minha família teve em mim.

E foi assim que eu segui, passando pelas fases cada dia pensando menos em mim e cada vez pensando em ser alguém que "os alguéns" admirassem.  Mas sempre de olho em busca de algo me que me fizesse feliz e de quebra (como não quer mada) me desse sucesso profissional até que achei a resposta assistindo a um jornal. Foi durante o almoço, ao meio-dia, assistindo ao Jornal Hoje que disse para mamãe "um dia ainda vou substituir o Evaristo" e ela sorriu. Não foi um sorriso desacreditado, foi mais como um meu filho sonha demais. Pelo menos não era um não. Vi no apresentador do jornal a representação de muitas coisas eu poderia fazer, porque eu estaria na TV, apresentando e por trás dã câmera eu ainda iria escrever, tinha coisa melhor? Desde esse dia eu havia decidido o meu futuro, iria ser jornalista. Mas o Leonardo daquela época não tinha ideia de que para chegar aonde eu queria a vida daria muitas curvas e manobras radicais. Se não me segurasse seria queda na certa. 

Prestei vestibular para jornalismo e minha mãe já estava até conformada com minha decisão, afinal ela é maravilhosa e me apoia em tudo nessa vida que não seja cometer um crime ou usar drogas. E o vestibular, Léo, passou? Sim, mas para minha segunda opção Rádio e TV, um curso que viria a ser uma paixão. Não que eu perdesse o amor por jornalismo, pois ele sempre estaria marcando presença no ali no coração , mas porque na universidade que eu passei, jornalismo é mais voltado para o impresso enquanto o curso de Rádio e TV me daria a chance de escrever para um veículo fantástico que está presente na minha vida desde cedo. Televisão! Eu teria the best of both worlds, à lá Hannah Montana do meu jeito sem direito a showbiz.  E hoje Léo, você ainda faz esse curso? Sim, mas quer saber de uma coisa? Apesar da minha escolha, apesar de eu estar fazendo uma coisa que gosto ainda não é o suficiente. Preciso de mais arte na vida mas acho que de tão sufocada, a criança sensível  que vivia dentro de mim desfaleceu, ficou em coma, sei lá. O que eu preciso nesse momento é fazer alguma coisa para acordá-lá, mostrar o espaço que há na minha vida só esperando ser ocupado por ela novamente. Agora que tenho alguma autonomia sobre mim mesmo, sobre o que ser quando crescer é preciso que essa criança volte a sonhar e mostrar as múltiplas possibilidades do que ser, pois o que eu aprendi aos vinte anos de idade é nunca é tarde demais para sonhar e ainda há muito o que crescer e infinidades que coisas que ainda é possível ser.


quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Em um relacionamento sério com o busão

Depois de algumas frustrações com minha falta de criatividade sobre o que quê escrever aqui no blog, veio a *brilhante* ideia (lâmpada acendendo em cima da cabeça) de que eu deveria falar sobre ônibus, que tal? Afinal, é dentro desse transporte cada vez mais caro e cada dia menos vazio e confortável que eu passo bastante tempo da minha vida.

Pois bem, vamos do início. Li uma vez (não sei aonde) que pesquisadores pelas bandas aí onde se faz pesquisas disseram que nós passamos um terço da nossa vida na cama, caso você durma oito horas por dia. Seguindo esse raciocínio, eu que passo três horas diárias dentro de um ônibus (muito provavelmente dormindo), passo três oitavos do meu dia dentro dele. Então, essas três horas  de sono no busão equivalem a quanto tempo da vida, no geral? Não sei ainda ao certo.






De acordo com uma conta não muito confiável que eu fiz, o tempo que eu gasto dentro de um ônibus no percurso de ida e volta casa para a universidade é muito grande e poderia ser gasto com outra coisa. Na minha matemática básica de garoto de escola pública que só se preocupava em passar, eu peguei os minutos que passo no ônibus diariamente (cerca de 180), multipliquei por 5 (dias da semana), multiplicando por quatro semanas, que é igual a mais ou menos um mês; e, por ultimo, multipliquei por 25 meses (tempo que estou na universidade). Uffa, é número demais...


Bem, o resultado desse cálculo hiper mega power duvidoso deu aproximadamente 60 mil minutos, ou seja, MIL HORAS. É tempo pra caramba! É como se eu passasse quarenta e dois dias ininterruptos em um ônibus. 







Nesse tempo todo eu poderia estar aproveitando de outra forma como aprender a tocar violão, escrever meu romance, aprender a pintar, viajar para Amsterdam, ou até mesmo dar uma volta ao mundo! É tanto tempo perdido no busão que depois desse cálculo eu fiquei bem desanimado com a vida. 

Se bem que eu gosto de dormir, independente do local onde eu esteja dormindo, e como o ônibus é um local propício pra isso, eu aproveito bem. Sério,  é só eu sentar num banco que eu durmo! Não sei ao certo a razão disso acontecer SEMPRE, nem tento entender (vai ver é o tremelexo do carro que simula o balanço de uma rede, só que não). Esse meu sono súbito até já me livrou alguns assaltos por aí. Na hora do perrengue enquanto os assaltantes roubavam horrores, eu estava de boas curtindo o verão com meus óculos escuros tirando um soninho maneiro. 


Mas como nem tudo são assaltos espinhos e não há nada que possa fazer em relação a diminuir o meu tempo no trânsito (como comprar um carro por esses tempos de crise), eu tento fazer o que posso para fazer do tempo que passo no ônibus um momento agradável. Fora depois de tirar um cochilo, eu faço várias coisas como estudar, ler um livro, rabiscar idéias para meu romance ou decorar as falas de algum personagem que eu vá interpretar. Assim eu faço do meu momento chato um momento mágico! 





O ônibus muitas vezes deixou de ser para mim somente um transporte e passou a ser como um laboratório. Nos apertos, aromas nada agradáveis de pessoas suadas, barulhos e frenesi de gente atrasada ou mesmo nas conversas de pessoas desconhecidas sobre amenidades (ou fofocas) da vida, que eu observo esse ser incrivelmente complexo e maravilhoso que é o ser humano. Já vi, ouvi e vivi cada coisa dentro dos busões que chega a valer muito a pena o tempo que passo lá. A impressão que dá é que o ônibus nos torna mais humanos, pois estamos em contato com todo tipo de pessoa que depende daquele transporte tanto quanto você, então você meio que se põe no lugar delas e começa a viver em comunidade, assim como quando uma mulher pagou a minha passagem no dia que minha carteirinha de meia passagem não passou na máquina por falta de saldo, em um dia que eu não tinha um centavo sequer. 

Aquelas pessoas dividem o mesmo dilema contigo, e poderiam estar estar fazendo outra coisa mais proveitosa da vida, mas não, estão lá dentro daquele transporte se locomovendo para algum outro lugar mais importante que lá. 

Eu por exemplo, só vim participar dessa comunidade onibuseira há pouco tempo, pois morei a vida toda em cidade pequena. Lá, quando eu precisava ir na casa de um amigo, comprar algo ou sair pra comer um cachorro quente era tudo muito fácil e perto, então eu aproveitava bastante tempo no local onde eu queria estar e o trajeto para mim era de quase nenhuma importância. Desde que vim morar (pela segunda vez em três anos) na capital, eu tenho me acostumado a passar mais tempo no trajeto de casa para determinados lugares que no próprio lugar. É uma forma estranha de se viver, mas é a vida. 

Para se ter uma ideia, nesses três anos de busão pra cá e busão pra lá, eu poderia ter feito horrores de coisas assim como uma amiga minha de infância. Dentro desses três anos ela conheceu um cara, se apaixonou, namorou, casou, engravidou, deu a luz a um menininho e até comprou uma casa, acredita? Hoje ela está de boas curtindo o verão com o filhinho mais fofo do mundo e eu aqui escrevendo esse texto num ônibus com mais 80 pessoas num calor de 40 graus de uma tarde de quinta-feira, tentando convencer a mim mesmo que isso não é tão ruim. Talvez eu o peça em namoro, já que no momento não estou podendo cortar essa relação. 




(Pra fazer o calculo do tempo que gasto no ônibus, eu levei em conta  o tempo que morei em outro local mais perto da universidade em que só passava 40 minutos no ônibus, mas confia em mim que tive o trabalho de anotar os meses e tudo mais)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Me conta o que você anda ouvindo

Sabe uma coisa que me deixa super curioso ao conhecer pessoas novas? A playlist do celular delas. Juro. Isso chega até a ser decisivo na hora de ver se eu devo de me tornar amigo meeesmo ou não. A pessoa nem precisa ouvir as mesmas músicas que eu, mas gosto de notar o quão elas são importantes em sua vida, e preciso ser convencido por isso. 

Um exemplo é: tenho uma amiga maravilhosa que ouve bandas que eu sequer ouvi falar, mas ela comenta sobre as músicas com tanta paixão, sobre não conseguir passar um dia sem ouvir que eu acabo me interessando também. Ao contrário de algumas pessoas que só têm no celular as "músicas que tocam na novela". Isso dá uma canseira... Nem sequer o nome elas sabem e as identificam como a música do carinha tal com aquela moça. Cadê o envolvimento com a canção? Onde está aquele gosto próprio desenvolvido por anos ao ouvir vários tipos de música até descobrir o que mais lhe agrada? O gato comeu.



Eu por exemplo adoro a básica farofa da mídia americana e européia. Ouço muito, muito pop (amo divas), mas meu gosto musical não se resume a isso. Se pegarem meu celular encontrarão tantas coisas díspares que pensarão até que devo ter bipolaridade (ou mais polaridades). Um homem de 40 anos disputando com um garotinho de 12 que está morrendo de medo de perder espaço para o jovem meio extrovertido demais. Tem Maria Gadu? Tem! Tem High School Musical? Tem! Tem Anitta? Teeem! Tem 2NE1? Tem! E Beyoncé, tem? Oh se tem, e como tem. 





Sou movido à música, sabe? Tudo o que faço é ouvindo uma, seja alegre, fofa, triste (tem Adele Pablo? Tem) ou contagiante. Pra você ter uma ideia, eu geralmente me concentro melhor ao ler um livro quando estou ouvindo música. Vou contar uma historinha pra você aqui rapidinha e já volto pro foco: era uma vez, num belo dia de sol eu fui para uma festa na casa de uma amiga. Nessa festa eu ouvi uma música super legal e perguntei qual era o nome e alguem disse "o nome eu não sei, só sei que é de The Killers". Lá fui eu procurá-la no tio GooGoo quando cheguei em casa, resultou que acabei baixando o álbum inteiro. Battle born. Como eu tinha um livro para ler, vulgo "Percy Jackson e o ladrão de raios", resolvi juntar o útil ao agradável e ouvi o álbum inteiro (repetidas vezes, é claro) enquanto lia esse livro. A coisa deu tão certo, combinou tão bem o ritmo das músicas, o som da guitarra e bateria com a ação da historia que acabei lendo TODA a série ouvindo esse mesmo álbum. Hoje em dia não consigo reler sem ouvir Battle Born e não consigo ouvir THE Killers sem lembrar de Percy Jackson. Isso é simplesmente o máximo.


Voltando ao foco. Gosto de fazer tudo que for nessa vida embalado por uma bela voz, um instrumental interessante e letras cativantes. E o que eu costumo ouvir depende muito da vibe. Por exemplo, agora eu estou tentando dar um rumo na minha vida, portanto preciso de músicas motivacionais ou então que me dêem uma sensação de "está tudo bem, sinta essa energia e dance" e estou encontrando isso em músicas com pegada meio retrô como Adele, Ariana (Yours Trully), Meghan Trainor e Bruno Mars. Aliás, eu amo tanto Unorthodox Jukebox, esse álbum me deixa tão pra cima... 



Minha música preferida é Treasure que parece com aquela música de Michael Jackson da abertura do VideoShow (qualquer dia desses eu conto porque eu tenho pavor do MJ). Foco Leonardo, foco!






Quando ouço músicas com esses estilo retrô como Old and Crazy ou Dear Future Husband eu me pego lembrando de uma vida que eu nunca tive, haha. Eu sei, é loucura mas na minha cabeça eu já fui americano e já vivi o American Dream. Pronto, superei isso.

Eu espero ter parecido minimamente interessante até aqui com minha playlist que segue enorme e bem variada. Tem É O Tchan? Fica no ar... E você? Quais segredos você guarda aí no reprodutor de músicas do seu celular ou no computador? 


Adoro conhecer o que as pessoas costumam ouvir, já disse isso? Hahaha