segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Cuscuz: branco ou amarelo, o sabor é de infância

por Juliana Carvalho


Minha mãe estava na cozinha falando sozinha, como de costume, e eu cheguei para lavar o meu prato depois do jantar. Ela disse "acho que amanhã vou fazer cuscuz para o café da manhã, mas estou em dúvida se faço ou não, porque ninguém come. Você e sua irmã acordam tarde demais e sobra o cuscuz inteiro!", eu respondi "faça mãe, e de preferência deixe formar aquela casquinha gostosa que a senhora tinha costume de fazer". 

Ela em seguida disse algo meio que poético sem que nem percebesse. Mamãe disse que as pessoas que fazem todo o processo do milho já não são as mesmas de antes e, que as que fazem hoje, talvez não tenham o mesmo cuidado ou não façam o mesmo processo para a massa ter o mesmo sabor da farinha do milho de dez anos atrás. 

Eu achei tão bonitinha a forma como ela falou que fiquei pensando o quão é incrível como até mesmo o cuidado com a comida e a forma como ela fica nos abre a memória para o sabor e textura do que sentíamos no passado. 

Eu lembro bem de quando estudava o ensino fundamental pela manhã e saía cedo para a escola. Naquelas manhãs, o meu pai virava a fôrma esburacada que segura o cuscuz e o deixava inteiro no prato, pronto para ser cortado e degustado. Minha mãe costumava queimar um pouquinho só pra deixar formar uma casquinha torradinha, casquinha essa que meu pai cortava com toda a perfeição. Eu adorava ver isso! Além disso, eu adorava vê-lo encher sua xícara de café até a borda e por três colheres de leite. Um leite doce como essa nostalgia. Eu corria pra tomar café com ele e provar o cuscuz quentinho com casquinha e margarina derretendo...Costumava imitá-lo enchendo a xícara até a borda, mas evitava o leite pois esse sabor meio-termo não me agrada. 

Hoje em dia quando como cuscuz e tomo um café sempre me vêem a cabeça esses pensamentos e, consequentemente penso em como as coisas mudam. Até as pouco perceptíveis como a massa do vitamilho e com elas mudam as sensações. Já que mudou a forma de se produzir a massa, minha mãe já não consegue mais fazer o cuscuz da mesma forma, meu pai  já não corta mais o cuscuz, pois parece preferir comer pão e, devido à correria de todos nós em casa, eu já tomo o café no sofá. Sozinha. 

Parece que tudo perdeu o gosto. Eu acho sem graça demais olhar pra cuscuzeira e o cuscuz estar ali, praticamente falando "eu não vou ser cortado daquela forma como no passado, mas retire um pedaço de mim com a colher mesmo". Assim, dá um desânimo ao comer o cuscuz. Talvez porque isso tudo tenha ficado na minha memória sobre os cafés da manhã da minha nem tão velha infância.

Créditos na imagem


Gente, esse texto lindo e nostálgico é da minha amiga fofa Juliana Carvalho, que também é uma das únicas leitora do blog. Não sei em vocês, mas em mim bateu uma saudade da infância também.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Ouço Histórias de Amor

Um tempo atrás eu tive uma experiência bem legal na vida: ouvi histórias de amor. Era uma intervenção artística que fazia parte de uma oficina teatral que participei, então, mesmo morto de vergonha, botei a cara no sol e fui.

Fiquei sentado em um corredor bastante movimentado do prédio em que estudo segurando uma plaquinha com a frase “Ouço histórias de amor” escrita nela. Meus primeiros 10 minutos foram bem vergonhosos porque a cara das pessoas que me viam ali era de “What? Que pessoa em pleno meio dia de uma segunda-feira fica num corredor pra ouvir histórias de amor?” Na verdade esse povo artístico de teatro costuma fazer com freqüência coisas do tipo, mas aí que ta o negócio: eu não sou de teatro; logo, não é comum pra mim sair por aí perguntando sobre a vida das pessoas nem nada parecido.

Pois bem, passados os dez primeiros minutos sentou uma pessoa. Não importa se era um amigo e só aceitou sentar porque eu pedi uma, duas, três, dez vezes, né? Não, não importa! O amigo ficou bem relutante em se abrir no começo por conta da história não ter um final legal, mas aí perguntei se ele amou a tal pessoa mesmo que por um tempo e se amá-la o deixou feliz, ele disse que sim. Pronto! Foi o suficiente pra entender o objetivo do negócio.

A história até que começa bem quando um amigo desse meu amigo o apresenta à tal pessoa, que depois viraram muito amigos mas não podiam ficar juntos porque a pessoa tinha um namorado. Daí em diante a história fica meio tensa, pois acontece que, num momento em que meu amigo já estava loucamente apaixonado, a pessoa que ele gostava disse que tinha dado um tempo no namoro e rolou que eles acabaram transando. O tenso da história é que ela acabou bem ali. A parte do tempo no namoro era mentira e para a pessoa o que aconteceu foi somente sexo enquanto pro meu amigo tinha sido muito mais, pois já tinha se envolvido bastante na situação. Resultado: ele ficou um caco. O que se aprende dessa fábula do terror é: não transe com quem acabou de dar um tempo no namoro. Mentira, pode transar mas não se envolva. Mas voltando ao caso do um amigo: o lado bom é que ele mesmo resolveu esquecer a pessoa, bloqueou de tudo e cortou qualquer relação antes que sofresse ainda mais. Hoje em dia ele ta bem e nem sofre miséria por causa desse passado. A prova disso é que já viveu “trocentas” outras histórias de amor depois do episódio.

Depois dessa primeira história eu fiquei super curioso para ouvir uma feliz, e não demorou muito e a segunda pessoa apareceu. A história foi bem engraçada e cheia de detalhes, no entanto os dez minutos de conversa podem ser resumidos em: Um garoto rebelde gostava de uma garota da igreja, e que pra se aproximar, resolveu fazer parte do grupo de teatro, chegando até a ganhar o papel de Jesus numa peça – o garoto tinha cabelo moicano na época; ou seja, Jesus era meio punk. A garota o odiava, mas virou sua amiga e com o tempo se apaixonou por ele e estão juntos há quatro anos.




Em outra história o contador tinha vivido esse amor em outro estado e o romance acabou por conta da distância. Já em outra, o contador se sentia muito mal por ter iludido o coração de uma garota. Uma das mais fofas foi sobre uma amizade que virou amor por conta da insistência e da falta de desânimo do contador mesmo após levar mais de setenta “nãos” da pessoa que amava.

Ao longo daquele dia ouvi várias histórias que variavam de tristes a felizes, de homo a heteroafetivas, até história de amizade, já que elas também são de amor. O mais legal foi que algumas pessoas não entenderam que a iniciativa fazia parte de um curso e ligaram o fato somente a mim como o Garoto Que Ouve Histórias de Amor. Achei o máximo. Foram tantos relatos, às vezes mais de um pela mesma pessoa e algumas histórias estavam começando a serem escritas e tinham tudo pra serem felizes por muito tempo. Tomara que sejam.

Como isso tudo posso dizer que fiquei muito contente por ver que as pessoas estão amando por aí. O mundo precisa de mais amante porque, quando se está amando trancado em próprio mundinho, não importa se o vizinho dorme com homens ou mulheres, se a menina da sala de aula é negra e tem o cabelo crespo, se a caixa do supermercado é transgênero ou se a amiga não é cristã, o que importa mesmo é a felicidade de um amor bem vivido, e que todas as pessoas, mesmo que diferentes, tenham um dia a experiência de amar. Amar é tão legal que eu nem me importo se é correspondido ou não, pois só de sentir essa coisa maravilhosa no coração já me sinto mais humano e mais alegre e com vontade de sair cantando por aí como um personagem de High School Musical.

Como já havia dito, fiquei associado como o Garoto Que Ouve Histórias de Amor e por conta disso até pouco tempo uma pessoa chegou em mim no facebook pra contar seu romance. Fiquei bem feliz, pois adoro ouvir, ver e ler histórias de amor, então se aprochegue, fica a vontade e diga pra mim sobre quando você amou alguém. Sou todo ouvidos.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

31 de janeiro ou o dia em que caguei com meu cabelo

Sabe quando você acorda com uma vontade imensa de mudar? De assumir uma nova identidade, de ter um jeitinho só seu, de ser colorido? Pois bem, eu vinha acordando há quase dois meses com essa vontade. Queria pintar meu cabelo de azul.



Como meu aniversário aconteceu na última quinta feira, eu prometi para mim mesmo que me presentearia com um novo visual. Enfim teria coragem de pintar minhas madeixas. Hoje eu não sei dizer se foi coragem ou loucura. Deixa no ar...

No domingo, 31 de janeiro eu convidei uma amiga para me ajudar nesse processo. Ela não tinha (ainda não tem) nenhum conhecimento aprofundado nessas questões de cabeleireira não, mas tiramos nosso diploma em Tutoriais do Youtube com especialização em Cachos e Anilinas recentemente, pensamos que tiraríamos tudo de letra. 

Eu tinha cinco produtos para a mudança: anilina à álcool da cor azul, violeta genciana (mais conhecida como VG), pó descolorante, dois potes de água oxigenada, uma máscara de hidratação e água quente (na falta do álcool). Pronto, estava no ponto de me jogar nessa loucura. Pra início de conversa, eu já comecei errando as porções das coisas. Por exemplo, na embalagem, a medida necessária para diluir a água oxigenada com o pó descolorante seria de 100ml a cada 50g, portanto, precisei colocar 200ml pra ser suficiente para o cabelo todo. Bem aí já fiquei com o pé atrás. Misturei tudinho, passei no cabelo, esperei por trinta minutos até ficar assim.
 
Eu estava contra-luz e na verdade ficou mais claro que isso. 
Tudo homogêneo, não é? Errado! Assim como você, eu só consegui olhar essa parte da cabeça que tá na foto. Para mim, as cores tinham ficado todas iguais, NO ENTANTO, a parte de cima da cabeça havia ficado escura e precisaria de mais uns quinze minutos descolorindo (já que foi a última a ser pintada), mas a minha amiga que era a única que conseguia ver como estava me disse que já estava bom para lavar. O resultado dá pra imaginar, né? Algumas partes ficaram loiras enquanto outras ficaram castanhas. Lá se foi uma boa base para a tintura...

Felizmente eu não tenho foto de cima da cabeça.

Depois disso, (eu ainda pensando que devia estar maravilhoso) sequei o cabelo durante uma hora, mais ou menos, para poder pintar. Assim que secou fiz a mistura da anilina, violeta genciana e creme de hidratação. Pra chegar num azul legal eu fiz várias misturas, ora pondo mais VG, ora pondo mais anilina. Devo dizer que a tal da anilina deveria ser dissolvida no álcool, porém, como eu não tinha em casa, eu usei água quente (que segundo minhas professoras da University Youtube of DIY dava no mesmo). Mistura feita e cabelo seco, lá vou eu passar a gororoba na cabeça.

Passei, fiquei cerca de quarenta minutos com a solução na cabeça e o resultado?
 
CORINGA

Nem preciso dizer o quanto fiquei triste com o resultado, não é mesmo? Essa cara de felicidade aí é pura falsidade porque eu ia mandar essa foto para uma amiga por whatsapp. Por trás desse meio riso há uma expressão de profunda frustração, e lá no fundinho do fundinho do fundinho de mim ainda havia um bocadinho de fé de que essa bosta seria concertada.

Esperei mais uma vez meu cabelo secar para poder jogar viola genciana e creme. Queria deixar meu cabelo BEM ROXO, pois na minha cabeça, a mistura entre verde e roxo resulta no azul. É isso mesmo produção? Veremos...

Enfim, passei a última mistura no cabelo com aquele sonho maravilhoso de que ficaria bom, afinal, quão triste e sem graça seria a vida se nós não tivéssemos esperança nela? Foi essa esperança que me moveu, mas como eu sou a pessoa mais azarada do universo: continuou uma bosta!

O resultado é esse! Poderia pegar uma foto melhorzinha, mas quero essa mesma que me mostra o quão frustado eu fiquei.


Leonardo Bolado

O que eu aprendi com isso? Dá pra pintar cabelo com anilina sim, mas você precisa preparar a base do seu cabelo fazendo uma descoloração decente e eu recomendo que faça isso com a ajuda de um profissional. Você não quer ficar com a cabeça cagada assim da primeira vez, não é mesmo? Vai por mim, às vezes o barato sai caro. Na pressa de fazer logo as coisas e na canhenguice (avareza) de fazer uma coisa sem gastar muito eu fiquei com esse resultado não muito legal. 

Ontem à noite, eu fui dormir com o cabelo roxo, já hoje amanheci com ele azul. Vamos ver até quantas cores ele poderá ficar. O pior é que eu preciso esperar mais duas semanas até poder colocar mais alguma coisa aqui... Vou na fé.