por Juliana Carvalho
Minha mãe estava
na cozinha falando sozinha, como de costume, e eu cheguei para lavar o meu
prato depois do jantar. Ela disse "acho que amanhã vou fazer cuscuz para o
café da manhã, mas estou em dúvida se faço ou não, porque ninguém come. Você e
sua irmã acordam tarde demais e sobra o cuscuz inteiro!", eu respondi
"faça mãe, e de preferência deixe formar aquela casquinha gostosa que a
senhora tinha costume de fazer".
Ela em seguida
disse algo meio que poético sem que nem percebesse. Mamãe disse que as pessoas
que fazem todo o processo do milho já não são as mesmas de antes e, que as que
fazem hoje, talvez não tenham o mesmo cuidado ou não façam o mesmo processo
para a massa ter o mesmo sabor da farinha do milho de dez anos atrás.
Eu achei tão
bonitinha a forma como ela falou que fiquei pensando o quão é incrível como até
mesmo o cuidado com a comida e a forma como ela fica nos abre a memória para o
sabor e textura do que sentíamos no passado.
Eu lembro bem de
quando estudava o ensino fundamental pela manhã e saía cedo para a escola.
Naquelas manhãs, o meu pai virava a fôrma esburacada que segura o cuscuz e o
deixava inteiro no prato, pronto para ser cortado e degustado. Minha mãe
costumava queimar um pouquinho só pra deixar formar uma casquinha torradinha,
casquinha essa que meu pai cortava com toda a perfeição. Eu adorava ver isso!
Além disso, eu adorava vê-lo encher sua xícara de café até a borda e por três
colheres de leite. Um leite doce como essa nostalgia. Eu corria pra tomar café
com ele e provar o cuscuz quentinho com casquinha e margarina
derretendo...Costumava imitá-lo enchendo a xícara até a borda, mas evitava o
leite pois esse sabor meio-termo não me agrada.
Hoje em dia quando
como cuscuz e tomo um café sempre me vêem a cabeça esses pensamentos e,
consequentemente penso em como as coisas mudam. Até as pouco perceptíveis como
a massa do vitamilho e com elas mudam as sensações. Já que mudou a forma de se
produzir a massa, minha mãe já não consegue mais fazer o cuscuz da mesma forma,
meu pai já não corta mais o cuscuz, pois parece preferir comer pão e,
devido à correria de todos nós em casa, eu já tomo o café no sofá.
Sozinha.
Parece que tudo
perdeu o gosto. Eu acho sem graça demais olhar pra cuscuzeira e o cuscuz estar
ali, praticamente falando "eu não vou ser cortado daquela forma como no
passado, mas retire um pedaço de mim com a colher mesmo". Assim, dá um
desânimo ao comer o cuscuz. Talvez porque isso tudo tenha ficado na minha
memória sobre os cafés da manhã da minha nem tão velha infância.
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| Créditos na imagem |
Gente, esse texto lindo e nostálgico é da minha amiga fofa Juliana Carvalho, que também é uma das únicas leitora do blog. Não sei em vocês, mas em mim bateu uma saudade da infância também.






