O
dia estava quente, bem quente. Segundo o noticiário da tv local, a temperatura
da cidade estava em trinta e três graus, mas para Noele estava beirando os
cinqüenta. Esses metereologistas não entendem de nada. Desligou a tv e o
ventilador da sala, foi à geladeira beber um pouco de água bem gelada depois
pegou a sua bolsa, pasta de xerox, celular e saiu de casa.
A
garota de dezenove anos dava graças à Deus por morar próximo à parada de
ônibus, pois andar bastante num sol escaldante de meio-dia para pegá-lo lotado
em plena segunda-feira era penitência demais, e Noele não achava que pecasse
tanto assim. No pequeno trajeto da sua casa até a parada ventava bastante, era
como um bafo quente de dragão que queria de todas as formas desfazer toda
aquela maquiagem magnífica que havia passado vinte minutos fazendo. Não, não
era justo que o calor fosse um vilão tão baixo.
Chegando
na parada, Noele ficou ansiosa para que seu ônibus chegasse, não que estivesse
atrasada, porque não estava, mas sim porque era segunda-feira, o começo de uma
nova semana e porque por mais inacreditável que possa parecer, Noele adorava
andar de ônibus. Não fora sempre assim, pois durante toda sua infância
detestava ter de andar num veiculo amontoado de pessoas desconhecidas, suadas e
ainda por cima levar mais que o dobro do tempo necessário que um carro
precisaria para chegar ao seu destino, mas em algum momento isso mudou, ela só
não lembra bem quando.
O
que Noele lembra é de uma vez ter ouvido uma bela música romântica sobre a
história de amor que se desenrola dentro de um ônibus e depois disso ter
sonhado que estava numa igreja, vestida de noiva e seu noivo foi fazendo um
belo discurso de como se conheceram no tal transporte público. Claro que nunca
passou pela cabeça dela que o sonho poderia ter sido conseqüência das milhares
de vezes que ouvia e cantava a bendita música, e mesmo se pensasse não faria
diferença. Como absurdamente romântica que era, Noele só pensava que aquilo era
uma visão ou uma dica do destino de como encontraria o grande amor de sua
vida.
Determinada,
a mulata de cachos volumosos e olhos cor de mel tinha posto a ideia na cabeça e
não havia ninguém capaz de tirá-la. Havia tido três namorados em toda a vida,
mas chegava um momento em que a coisa ficava mais séria e Noele optava por
acabar logo o namoro. Rodrigo, o primeiro, era um cavalheiro. Metidinho um
pouco, mas nada que não fosse capaz de lidar numa boa. O rapaz sabia como
tratar uma mulher e lhe dava até flores, mas para Noele isso não era bom o
bastante. Gabriel, o segundo, era um surfista profissional. Apesar de ser
quatro anos mais velho que ela, ele ainda tinha cabeça de garotão. E se tinha
uma coisa que Noele não tinha era paciência para lidar com caras imaturos. Mas
Gabriel apesar de tudo fazia programas bem interessantes como levá-la para
viajar, praticar esportes, assistir filmes de terror, mas para ela isso não era
bom o bastante. O terceiro e mais recente foi Clodovil, um garoto tão hilário
quanto seu nome. Ele tinha palavras fáceis, elogiava bastante a beleza da namorada,
a levava para o pagode e era muito sociável. Clodovil sabia lidar com as
pessoas no papo e foi com esse seu jeitão maroto que acabou se envolvendo com
duas amigas de Noele. Ela nunca soube de nada, mas terminou com ele pois achava
que também não era bom o bastante.
Isso
era o que ela dizia a si mesma porque no fundo, no fundo, sabia que o motivo
era outro: eles não se conheceram em um ônibus, e esse era um requisito
importantíssimo para se ter alguma coisa mais séria com ela. Durante um tempo
após o término Noele se sentia uma tremenda idiota, porém superava o chilique
rapidinho e logo estava à procura de seu amor nos busões.
Ali
na parada esperando o transporte seu coração batia forte e não sabia de que
jeito, mas pressentira que o amor de sua vida seria encontrado naquele dia.
Milagrosamente em menos de dois minutos ele chegou. Não o amor, e sim o ônibus.
A garota subiu, deu boa tarde ao motorista e a cobradora e sentou-se em um dos
bancos no meio do veículo, do lado da janela. Ao seu lado estava sentada uma
senhorinha que tinha os costume de pintar os cabelos de rosa pink. Era um amor.
Noele nunca soube seu nome, mas sempre se cumprimentavam e às vezes até
comentavam sobre o tempo. Quando se acomodou na cadeira, a garota olhou
discretamente ao redor à procura de algum rapaz interessante. Nada.
Noele
estava à procura de um rosto específico, mas não lembrava nenhum detalhe,
nenhuma especificidade. No sonho que teve quando nova, lembrava de ter olhado
diretamente nos olhos de seu noivo e no momento até existia um rosto de
verdade, mas atualmente o que restava eram lapsos de memória. Tudo borrado
naquilo que viria a ser a identidade do amor de sua vida. Quando se interessava
por algum rapaz andando pelos ônibus à
fora, a garota sempre tinha certeza que o rosto do tal rapaz era o de seu
sonho, “só podia ser”, mas assim que descia em sua parada sua certeza se
dissolvia como algodão-doce na boca. Uma sensação gostosa de estar sentindo que
algo maravilhoso está com você até que ele some por completo e só fica a
memória do sabor.
Noele
olhou mais uma vez à sua volta e como nada encontrou resolveu ler seu livro que
estava na bolsa. Como faltavam só trinta páginas para terminá-lo e o percurso
até a faculdade era longo, ligeiramente terminou a leitura. Pronto, estaria sem
nenhuma distração pelos próximos vinte e cinco minutos. Guardou o livro na
bolsa e olhou para a janela. Viu carros, casas belíssimas, alguns garotos
andando de skate numa praça, uma igreja, tudo igual aos outros dias, a única
diferença era o garoto que estava sentado à sua frente e que olhava timidamente
seu reflexo na janela. Noele desviou o olhar. Garoto estranho esse com uma
camisa duas vezes o seu tamanho, pensou ela. Ele tinha várias pulseiras
metálicas no braço, um colar com uma cruz negra e um piercing no nariz, o único
detalhe que realmente exalava beleza eram seus olhos incrivelmente verdes num
tom de esmeralda. Noele achou que a ênfase no olhar era causada pelos lápis de
olho preto que ele usava. Ficou intrigada.
Discretamente
continuou com o jogo de olhares, ficava olhando o reflexo do garoto pelo vidro,
mas, quando ele olhava de volta, Noele virava um pouquinho o rosto para
fingir que prestava atenção nas fachadas das casas da cidade, sempre com um
sorriso dissimulado nos lábios, claro. Continuou com isso durante um tempo e
seu coração já dava pulinhos. O garoto não fazia muito seu tipo, mas se tinha
que ser ele ela não reclamaria com o destino, na verdade começava até a
imaginar seu rosto no corpo do noivo dos sonhos. Imaginação não lhe faltava.
O
ônibus parou e a senhorinha pink desceu, deixando o lugar ao lado de Noele
vazio e, como o ônibus estava quase sem ninguém, o coração dela quase saiu pela
boca diante da possibilidade de o garoto se levantar e sentar ao seu lado.
Naquele momento ela decidiu prestar atenção em todos os detalhes do garoto
(como fazia com todos os outros que se interessava) para quando for contar para
seus filhos, dissesse tintim por tintim do momento em que vira seu pai pela
primeira vez. Faria questão de ser detalhista pois Natasha, Samanta e Juliano
seriam como ela, ávidos por uma história de amor bem contada. Quem sabe contaria
o romance enquanto os cinco passeassem com a cadelinha Teodora pelas ruas do
Rio de Janeiro, cidade onde certamente morariam.
Dois
minutos depois da Senhora Pink ter descido, o garoto de olhos verdes se
levantou e... puxou a cordinha. Ele iria descer. Noele ainda estava a uns dez
quarteirões da faculdade mas aquele ponto era o fim da linha. Fim da linha de
mais uma história de amor não-sucedida. Continuou a viagem sentadinha no mesmo
lugar sem saco para reparar em qualquer garoto que passasse pela catraca. Dez
quarteirões depois foi a vez dela mesma descer e enfrentar mais um dia
cansativo na faculdade de letras. Noele sonhava em ser contadora de histórias,
não importava como.
Às
seis e meia da tarde era hora que a aula da garota acabava e ela já se
preparava para pegar mais um ônibus para ir para casa. A tarde de alguma forma
serviu para revigorar suas forças e seu imenso potencial de acreditar em coisas
sem pé nem cabeça. Pôs o pé no primeiro degrau do veículo e já estava disposta
a encontrar o amor de sua vida, mas sabia que se não encontrasse não
desistiria. Na pior das hipóteses de não encontrá-lo, ela teria pelo menos uma
história para contar.

Parabéns Leonardo! Você escreve muito bem. Acho que existem várias Noeles por aí.
ResponderExcluirBlog Profano Feminino
Own, muito obrigado. E existem muitas Noeles sim. Eu conheço umas duas, pelo menos. hahaha
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