sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Devaneio coletivo

O dia estava quente, bem quente. Segundo o noticiário da tv local, a temperatura da cidade estava em trinta e três graus, mas para Noele estava beirando os cinqüenta. Esses metereologistas não entendem de nada. Desligou a tv e o ventilador da sala, foi à geladeira beber um pouco de água bem gelada depois pegou a sua bolsa, pasta de xerox, celular e saiu de casa.

A garota de dezenove anos dava graças à Deus por morar próximo à parada de ônibus, pois andar bastante num sol escaldante de meio-dia para pegá-lo lotado em plena segunda-feira era penitência demais, e Noele não achava que pecasse tanto assim. No pequeno trajeto da sua casa até a parada ventava bastante, era como um bafo quente de dragão que queria de todas as formas desfazer toda aquela maquiagem magnífica que havia passado vinte minutos fazendo. Não, não era justo que o calor fosse um vilão tão baixo.

Chegando na parada, Noele ficou ansiosa para que seu ônibus chegasse, não que estivesse atrasada, porque não estava, mas sim porque era segunda-feira, o começo de uma nova semana e porque por mais inacreditável que possa parecer, Noele adorava andar de ônibus. Não fora sempre assim, pois durante toda sua infância detestava ter de andar num veiculo amontoado de pessoas desconhecidas, suadas e ainda por cima levar mais que o dobro do tempo necessário que um carro precisaria para chegar ao seu destino, mas em algum momento isso mudou, ela só não lembra bem quando.

O que Noele lembra é de uma vez ter ouvido uma bela música romântica sobre a história de amor que se desenrola dentro de um ônibus e depois disso ter sonhado que estava numa igreja, vestida de noiva e seu noivo foi fazendo um belo discurso de como se conheceram no tal transporte público. Claro que nunca passou pela cabeça dela que o sonho poderia ter sido conseqüência das milhares de vezes que ouvia e cantava a bendita música, e mesmo se pensasse não faria diferença. Como absurdamente romântica que era, Noele só pensava que aquilo era uma visão ou uma dica do destino de como encontraria  o grande amor de sua vida.

Determinada, a mulata de cachos volumosos e olhos cor de mel tinha posto a ideia na cabeça e não havia ninguém capaz de tirá-la. Havia tido três namorados em toda a vida, mas chegava um momento em que a coisa ficava mais séria e Noele optava por acabar logo o namoro. Rodrigo, o primeiro, era um cavalheiro. Metidinho um pouco, mas nada que não fosse capaz de lidar numa boa. O rapaz sabia como tratar uma mulher e lhe dava até flores, mas para Noele isso não era bom o bastante. Gabriel, o segundo, era um surfista profissional. Apesar de ser quatro anos mais velho que ela, ele ainda tinha cabeça de garotão. E se tinha uma coisa que Noele não tinha era paciência para lidar com caras imaturos. Mas Gabriel apesar de tudo fazia programas bem interessantes como levá-la para viajar, praticar esportes, assistir filmes de terror, mas para ela isso não era bom o bastante. O terceiro e mais recente foi Clodovil, um garoto tão hilário quanto seu nome. Ele tinha palavras fáceis, elogiava bastante a beleza da namorada, a levava para o pagode e era muito sociável. Clodovil sabia lidar com as pessoas no papo e foi com esse seu jeitão maroto que acabou se envolvendo com duas amigas de Noele. Ela nunca soube de nada, mas terminou com ele pois achava que também não era bom o bastante.

Isso era o que ela dizia a si mesma porque no fundo, no fundo, sabia que o motivo era outro: eles não se conheceram em um ônibus, e esse era um requisito importantíssimo para se ter alguma coisa mais séria com ela. Durante um tempo após o término Noele se sentia uma tremenda idiota, porém superava o chilique rapidinho e logo estava à procura de seu amor nos busões.

Ali na parada esperando o transporte seu coração batia forte e não sabia de que jeito, mas pressentira que o amor de sua vida seria encontrado naquele dia. Milagrosamente em menos de dois minutos ele chegou. Não o amor, e sim o ônibus. A garota subiu, deu boa tarde ao motorista e a cobradora e sentou-se em um dos bancos no meio do veículo, do lado da janela. Ao seu lado estava sentada uma senhorinha que tinha os costume de pintar os cabelos de rosa pink. Era um amor. Noele nunca soube seu nome, mas sempre se cumprimentavam e às vezes até comentavam sobre o tempo. Quando se acomodou na cadeira, a garota olhou discretamente ao redor à procura de algum rapaz interessante. Nada.

Noele estava à procura de um rosto específico, mas não lembrava nenhum detalhe, nenhuma especificidade. No sonho que teve quando nova, lembrava de ter olhado diretamente nos olhos de seu noivo e no momento até existia um rosto de verdade, mas atualmente o que restava eram lapsos de memória. Tudo borrado naquilo que viria a ser a identidade do amor de sua vida. Quando se interessava por algum rapaz  andando pelos ônibus à fora, a garota sempre tinha certeza que o rosto do tal rapaz era o de seu sonho, “só podia ser”, mas assim que descia em sua parada sua certeza se dissolvia como algodão-doce na boca. Uma sensação gostosa de estar sentindo que algo maravilhoso está com você até que ele some por completo e só fica a memória do sabor.

Noele olhou mais uma vez à sua volta e como nada encontrou resolveu ler seu livro que estava na bolsa. Como faltavam só trinta páginas para terminá-lo e o percurso até a faculdade era longo, ligeiramente terminou a leitura. Pronto, estaria sem nenhuma distração pelos próximos vinte e cinco minutos. Guardou o livro na bolsa e olhou para a janela. Viu carros, casas belíssimas, alguns garotos andando de skate numa praça, uma igreja, tudo igual aos outros dias, a única diferença era o garoto que estava sentado à sua frente e que olhava timidamente seu reflexo na janela. Noele desviou o olhar. Garoto estranho esse com uma camisa duas vezes o seu tamanho, pensou ela. Ele tinha várias pulseiras metálicas no braço, um colar com uma cruz negra e um piercing no nariz, o único detalhe que realmente exalava beleza eram seus olhos incrivelmente verdes num tom de esmeralda. Noele achou que a ênfase no olhar era causada pelos lápis de olho preto que ele usava. Ficou intrigada.

Discretamente continuou com o jogo de olhares, ficava olhando o reflexo do garoto pelo vidro, mas, quando ele olhava de volta, Noele virava um pouquinho o rosto  para fingir que prestava atenção nas fachadas das casas da cidade, sempre com um sorriso dissimulado nos lábios, claro. Continuou com isso durante um tempo e seu coração já dava pulinhos. O garoto não fazia muito seu tipo, mas se tinha que ser ele ela não reclamaria com o destino, na verdade começava até a imaginar seu rosto no corpo do noivo dos sonhos. Imaginação não lhe faltava.

O ônibus parou e a senhorinha pink desceu, deixando o lugar ao lado de Noele vazio e, como o ônibus estava quase sem ninguém, o coração dela quase saiu pela boca diante da possibilidade de o garoto se levantar e sentar ao seu lado. Naquele momento ela decidiu prestar atenção em todos os detalhes do garoto (como fazia com todos os outros que se interessava) para quando for contar para seus filhos, dissesse tintim por tintim do momento em que vira seu pai pela primeira vez. Faria questão de ser detalhista pois Natasha, Samanta e Juliano seriam como ela, ávidos por uma história de amor bem contada. Quem sabe contaria o romance enquanto os cinco passeassem com a cadelinha Teodora pelas ruas do Rio de Janeiro, cidade onde certamente morariam.

Dois minutos depois da Senhora Pink ter descido, o garoto de olhos verdes se levantou e... puxou a cordinha. Ele iria descer. Noele ainda estava a uns dez quarteirões da faculdade mas aquele ponto era o fim da linha. Fim da linha de mais uma história de amor não-sucedida. Continuou a viagem sentadinha no mesmo lugar sem saco para reparar em qualquer garoto que passasse pela catraca. Dez quarteirões depois foi a vez dela mesma descer e enfrentar mais um dia cansativo na faculdade de letras. Noele sonhava em ser contadora de histórias, não importava como.


          Às seis e meia da tarde era hora que a aula da garota acabava e ela já se preparava para pegar mais um ônibus para ir para casa. A tarde de alguma forma serviu para revigorar suas forças e seu imenso potencial de acreditar em coisas sem pé nem cabeça. Pôs o pé no primeiro degrau do veículo e já estava disposta a encontrar o amor de sua vida, mas sabia que se não encontrasse não desistiria. Na pior das hipóteses de não encontrá-lo, ela teria pelo menos uma história para contar.





2 comentários:

  1. Parabéns Leonardo! Você escreve muito bem. Acho que existem várias Noeles por aí.

    Blog Profano Feminino

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    1. Own, muito obrigado. E existem muitas Noeles sim. Eu conheço umas duas, pelo menos. hahaha

      :)

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