domingo, 6 de setembro de 2015

Sobre o que ser quando crescer

Quando era criança, eu tinha milhares de sonhos e planos do que seria quando fosse adulto. Ser adulto era uma coisa de extrema importância para mim e eu me esforçava bastante na escola para orgulhar minha família, afinal eu estava estudando para um dia ser adulto bem sucedido, certo? Bem, era isso que eu pensava.


Foi posto desde cedo na minha cabeça que eu deveria seguir uma profissão que desse dinheiro como  advocacia, engenharia, arquitetura ou medicina, e, durante um tempo eu até me animei com a ideia (de ser bem sucedido, claro, pois desde cedo vi que não tinha vocação pra nenhuma dessas profissões).

O que eu gostava mesmo era de arte. Gostava de inventar historias para meus bonecos de plástico, amava ouvir música em casa e ficar dancing with myself . Fazia fantoches de meia e apresentava para uma platéia imaginária, pois adorava a ideia de ter um público prestando atenção em algo que eu havia me dedicado para fazer. Gostava de cantar músicas em inglês mesmo sem saber nada da etra ou sobre notas musicais e também costumava usar a escova de cabelo como microfone, e, quando não cantava, eu apresentava algum programa na minha televisão imaginária. Mas de todas essas coisas, o que eu mais gostava era de ler e escrever poesias.
Menino lendo na cama, 'by Anni Matsick'

Todas essas diversões solo eram escolhas minhas porque apesar de ter sempre bastantes amigos e primos com quem brincar, eu preferia muitas vezes ficar isolado e curtir minha infância sozinho, fazendo aquilo que eu considerava arte. Mas com o passar do tempo, a falta de compreensão e  meu "amaendurecimento" fez com que tudo isso se perdesse. Comecei a escrever menos e não mais produzia fantoches porque costura não é coisa que um rapaz deve fazer. O caderninho de poesia foi pro lixo, junto com todas as rimas inocentes da minha infância. Cantar passou a ser uma coisa bem íntima, só quando sabia que estava sozinho porque ninguém era obrigado a ouvir minha voz feia. Brincar de bonecos aos 11 anos de idade passou a ser um grande segredo que mantinha, pois é vergonhoso que você se comporte como criança quando seus amigos estão começando a se importar com coisas mais sérias, como namorar, por exemplo. E eu fui nessa onda.

Tentei passar pelas mesmas coisas que meus amigos passavam, tudo sem saber que não era hora, aquele não era meu momento. Eu ainda era uma criança. Fui crescendo e a vontade de viver de arte foi sendo reprimida, o pensamento de que deveria ter uma profissão "mais útil" foi ganhando espaço até que decidi que seria advogado. Mas confesso que nesse processo eu continuava com muitos sonhos que não fossem ser advogado como ser escritor, músico, ator, ou até mesmo professor de literatura, mas esse tipo de coisa não podia ser falada em voz alta. "Onde já se viu passar a vida ganhando a mixaria de salário de professor, Leonardo?" Isso seria jogar no lixo todas as expectativas e investimentos que minha família teve em mim.

E foi assim que eu segui, passando pelas fases cada dia pensando menos em mim e cada vez pensando em ser alguém que "os alguéns" admirassem.  Mas sempre de olho em busca de algo me que me fizesse feliz e de quebra (como não quer mada) me desse sucesso profissional até que achei a resposta assistindo a um jornal. Foi durante o almoço, ao meio-dia, assistindo ao Jornal Hoje que disse para mamãe "um dia ainda vou substituir o Evaristo" e ela sorriu. Não foi um sorriso desacreditado, foi mais como um meu filho sonha demais. Pelo menos não era um não. Vi no apresentador do jornal a representação de muitas coisas eu poderia fazer, porque eu estaria na TV, apresentando e por trás dã câmera eu ainda iria escrever, tinha coisa melhor? Desde esse dia eu havia decidido o meu futuro, iria ser jornalista. Mas o Leonardo daquela época não tinha ideia de que para chegar aonde eu queria a vida daria muitas curvas e manobras radicais. Se não me segurasse seria queda na certa. 

Prestei vestibular para jornalismo e minha mãe já estava até conformada com minha decisão, afinal ela é maravilhosa e me apoia em tudo nessa vida que não seja cometer um crime ou usar drogas. E o vestibular, Léo, passou? Sim, mas para minha segunda opção Rádio e TV, um curso que viria a ser uma paixão. Não que eu perdesse o amor por jornalismo, pois ele sempre estaria marcando presença no ali no coração , mas porque na universidade que eu passei, jornalismo é mais voltado para o impresso enquanto o curso de Rádio e TV me daria a chance de escrever para um veículo fantástico que está presente na minha vida desde cedo. Televisão! Eu teria the best of both worlds, à lá Hannah Montana do meu jeito sem direito a showbiz.  E hoje Léo, você ainda faz esse curso? Sim, mas quer saber de uma coisa? Apesar da minha escolha, apesar de eu estar fazendo uma coisa que gosto ainda não é o suficiente. Preciso de mais arte na vida mas acho que de tão sufocada, a criança sensível  que vivia dentro de mim desfaleceu, ficou em coma, sei lá. O que eu preciso nesse momento é fazer alguma coisa para acordá-lá, mostrar o espaço que há na minha vida só esperando ser ocupado por ela novamente. Agora que tenho alguma autonomia sobre mim mesmo, sobre o que ser quando crescer é preciso que essa criança volte a sonhar e mostrar as múltiplas possibilidades do que ser, pois o que eu aprendi aos vinte anos de idade é nunca é tarde demais para sonhar e ainda há muito o que crescer e infinidades que coisas que ainda é possível ser.


3 comentários:

  1. Ah, eu também já tive um pouco disso. Nunca me "encaixei", pra falar a verdade, e sempre tentei imitar as outras pessoas porque achava que se eu fosse aceita, meus problemas acabariam. Fato que, depois de anos, tudo foi justamente pelo lado oposto. Continuo sem me encaixar direito, mas agora finalmente me aceito. E dane-se se outras pessoas não gostam hahaha.

    Jornalismo é bom demais, se eu tivesse um dia de 30 horas também faria. Mas como você disse, Rádio e Tv também parece ser fantástico. Se joga e aproveita :)

    Beijão!

    A tal da Vivian

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    1. Essa questão de "ser aceito" é uma sombra que persegue a maioria das pessoas nesse mundo interneticamente perfeito, onde todos são felizes e bem sucedidos.

      Ah, e vou me jogar sim, pode deixar.

      Beijos.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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